A personagem Hilda Furacão, imortalizada por Roberto Drummond no romance homônimo de 1991, transcende a literatura e se inscreve no imaginário cultural de Belo Horizonte. Ambientada sobretudo na zona boêmia da Rua Guaicurus, a narrativa mescla memória urbana, mitologia local e ficção histórica. A dúvida sobre a existência real da personagem - ou sua invenção literária - transforma-se em campo fértil para a análise crítica, pois, como sugere Linda Hutcheon (1991), toda ficção que se volta à história também questiona os limites entre memória, verdade e narrativa.
O autor Aureliano Borges propõe o diálogo entre o conceito de alegoria do ensaísta alemão Walter Benjamin (1984) com o romance Hilda Furacão. Alegoria para Benjamin é um procedimento que acolhe fragmentos, ruínas e resulta em múltiplos significados. O resultado dessa experiência é a releitura, a ressignificação do romance, em especial na contextualização do período preparatório para o Golpe de 1964 e seu começo. Esses novos significados são trazidos e analisados pelo autor, que deixa a continuidade dessa discussão política literária por conta do leitor.